Gastronomia por Roberta Sudbrack
29/01/2008 ..
Desde ontem...
Desde ontem, mesmo dentro do meu turbilhão de emoções, me pergunto: como será que vai ser depois disso tudo? Parava as cenas por instantes e assistia de fora a uma explosão de sentimentos, cores, vibrações e alegria, dentro do espaço mais sagrado e agregador que conheço: a cozinha.
Pensava, como dizer: acabou?
A energia que corria era de tal maneira absoluta, que a única saída seria dormirmos juntos, prepararmos o café para todos no dia seguinte, com muito pão na chapa e café coado, e, seguir em frente, juntos! Sempre juntos! Coisa como voltar no tempo através de uma receita que nos remete à cozinha de avó, a cheiros e cores da infância. Tenho certeza de que voltamos todos no tempo ontem e tivemos a certeza de que estávamos num encontro de escola, daqueles que quando chega a hora de voltar para casa, irremediavelmente dá vontade de chorar. E choramos. Ainda estamos chorando, felizes, mas estamos.
Ainda sinto na minha cabeça, no meu corpo, na minha alma, toda a vibração que tomou conta da cozinha da casinha laranja à beira do canal ontem à tarde. Sinto dor nas pernas também! Claro, pudera, meu pessoal disse que eu entrei em transe e me acabei! Na verdade acho que só quem não entrou em transe foram os fornos que assaram delicadamente e em baixa temperatura os nossos potinhos de chocolate com creme inglês! Soberbos! De resto, acredito nunca ter visto, sentido e até tocado em algo tão intensamente repleto de emoção. Emoção pura, in natura e sem conservantes! Agitamos e usamos. E como usamos!
Um começo tenso, e como poderia ser diferente? Conhecer pessoas que na verdade já conhecemos tanto! Reencontros? Encontros? Vivências absolutas, intensas e consistentes apesar de qualquer obstáculo. Prova disso foi a interação que ocorreu de maneira tão natural depois de tão poucos minutos. O coração ainda batia forte, muito forte! Mas aos poucos a troca de olhares já era íntima e as palavras não se faziam mais necessárias. Eu olhava tudo aquilo e pensava na adorável e maravilhosa oportunidade que o interesse por algo tão simples propiciara. A comida, suas cores, seu aroma, seus sabores, sua alma, capazes de unir, criar e acima de tudo, emocionar.
E o que é a cozinha senão essa explosão de sentimentos, doação e criação? Nada conta mais do que isso, nada está acima disso! Nem pode estar! Nem máquinas, nem fornos ultramodernos, nem apetrechos de última geração! Cozinha é alma, troca, doação e um sentimento que se move sempre na mesma direção: a do amor.
Love is in the air, a música da tarde. E poderia ser outra?
Reverência. Repleta de emoção.
Até!
Chef
30/01/2008 ..
Quiabo, meu rei!
Eu sei que vocês não agüentam mais me ouvir falar de quiabo, é compreensível. Não só passei o ano passado inteiro estudando, dissecando e pesquisando o quiabo, como também falei dele todos os dias! Outro dia uma colaboradora do meu staff foi fazer uma compra numa loja e na hora de informar o nome da empresa onde trabalhava para o cadastro, vira a vendedora e diz: “Você trabalha com a Roberta Sudbrack? Aquela do quiabo?”.
Estou prestes a me tornar a embaixadora brasileira do quiabo! Está próximo. No dia 16 embarco para a Espanha para dar uma aula em um dos mais importantes Fóruns da Europa e levo na bagagem e na alma: o quiabo! A princípio pensei: “Meu Deus, o que vou eu fazer na terra da cozinha molecular com uma receita de tamanha simplicidade?”. Aí chegou a lista dos utensílios, eletrodomésticos e apetrechos de laboratório que estariam a minha disposição para uma aula explanatória de 1 hora e 30 minutos. De máquina de cozimento a vácuo a desfibrilador! Olhei, olhei, olhei e escolhi: tábua de corte, bowls, gelo, panela, frigideira e grelha de ferro fundido – essa não constava na lista e está dando um trabalhão danado para a organização do evento! “Uma simples grelha? Onde vamos arranjar isso?”.
Mas, nesses dias de emoção latente, andei pensando se essa “pseudo simplicidade”, interessantíssima em minha opinião, seria compreendida por uma platéia a espera de desconstrução, técnicas mirabolantes e pirotecnia? Confesso que andei perdendo o sono. O que dirá o David – nosso dançarino e meu fiel assistente - que embarca comigo para a sua primeira viagem internacional?
Mas alguns acontecimentos marcantes nos últimos dias – isso é o que não tem faltado na minha vida! – me deixaram mais confiante nas minhas convicções. Ontem um dos maiores entendedores de gastronomia que eu conheço – e admiro! – o José Bonifácio, o querido Boni, jantando na casinha laranja à beira do canal, me disse que o caviar nacional na opinião dele é das coisas mais geniais que já experimentou. Eu que já não andava conseguindo lidar com as minhas emoções, fui literalmente a nocaute! Nocaute do bem, daqueles que ao invés de derrubar te tira do chão e faz flutuar. Do jeito que eu ando flutuando, daqui a pouco estou cantando as comandas do telhado!
Para completar, hoje uma das maiores pesquisadoras e entendedoras de gastronomia que conheço – e também muito admiro! – a Danusia Barbara, fala do meu quiabo em seu programa de rádio, com um patriotismo de dar água nos olhos, e porque não dizer na boca também! Escutem só: http://cbn.globoradio.globo.com/cbn/colunas/cbnsabores.asp
Acredito plenamente que toda essa emoção latente que tomou conta de nós e ainda não nos deixou, assim como o reconhecimento desse rei chamado quiabo, tem uma só explicação: amor.
Amor à profissão, ao trabalho, aos ingredientes, aos produtores e acima de tudo ao elemento chave nessa equação, o humano. Com uma equação dessas não há nitrogênio liquido que cause mais efeito do que nós!
Love is still in the air!
Até!
31/01/2008 ..
Restaurante ou restaurar?
Ando ficando preocupada com o turbilhão de emoções vividas nos últimos dias. Primeiro foi o antológico dia 28 de janeiro. Absolutamente impossível de ser esquecido. Totalmente avassalador! Não paro de pensar na possibilidade de no ano que vem acamparmos e literalmente prepararmos o café da manhã no dia seguinte repleto de pão na chapa e café coado! Talvez assim seja menos dolorosa a hora do adeus. Ou não.
Depois veio de mansinho, como se ainda naquele dia estivéssemos, a visita da Li e de seu amigo mestre das massas. Absolutamente apaixonado por seu ofício, pela essência verdadeira da profissão e pelas emoções. Impossível deixar de se emocionar com pessoas assim. Falamos um pouco sobre um dos temas que vira e mexe coloco aqui nessa panela: a doação sem limites do cozinheiro.
Compreendo que seja difícil de entender a real relação do cozinheiro com o comensal. Afinal, depois da Queda da Bastilha na França, foram todos obrigados a sair em campo, deixando o aconchego dos palácios, à procura de uma cozinha para chamar de sua. A solução foi basicamente o nascimento do restaurante. Palavra que na essência quer dizer: lugar onde se restaura. E por que não dizer também: aconchega!
É compreensível que a palavra restaurante esteja quase sempre associada ao termo comércio, pois na realidade, em certos casos, é só isso mesmo. Mas a essência verdadeira – quando é verdadeira! – na realidade caminha num sentido totalmente oposto. Quando vestimos nosso jaleco e entramos na cozinha para o momento do serviço, ou seja, literalmente o momento em que iremos servir os nossos comensais, a nossa doação só pode ser absoluta. Não posso acreditar que exista um cozinheiro – falo de cozinheiro de alma – que nesse momento esteja preocupado com outra coisa senão a alegria de quem está servindo. Nesse momento a palavra comércio chega a parecer violenta, não combina com a energia empregada nos pratos que serão servidos. Não combina com a doação intensa e exaustiva de um dia inteiro de trabalho em busca de momentos quase perfeitos. Não se conecta com o real sentido da palavra restaurar!
Parece difícil acreditar nisso num mundo como o de hoje, mas se parássemos para observar certos detalhes muito pequenos cada vez que saíssemos para jantar, coisas como:
o cuidado com que a mesa foi arrumada,
o sorriso do garçom,
a música escolhida,
a temperatura do pão,
a dobra do guardanapo,
as flores que estão em cima da mesa,
a disposição dos talheres,
o alinhamento das mesas,
a manteiga,
o empenho para que tudo aconteça em harmonia, mesmo que nem sempre, apesar de todo o esforço, aconteça!
A adrenalina que deve imediatamente se transformar em sorriso diante da sua mesa,
e finalmente a qualidade, o frescor e a essência do produto servido.
Talvez, se prestássemos um pouquinho mais de atenção em pelo menos alguns desses detalhes, pudéssemos começar aos pouquinhos a separar o joio do trigo. Ou seja, separar um espaço em nosso caderninho Moleskine, onde escreveríamos os endereços dos restaurantes e outro onde só estariam os que restauram!
Até!
01/02/2008 ..
Debulhação...
O título do post de hoje é em homenagem ao comentário do nosso ministro dos Esportes, adorei! Bem como a todos aqueles que muito sensatamente, como eu, choram até com beijo de novela. È bem verdade que eu infelizmente não tenho tido mais tempo de acompanhar as novelas, coisa que eu adorava. Mas, se passa um repeteco, eu choro! Chorar de emoção é uma das coisas mais prazerosas da vida. Prazer estranho, é verdade. Mas delicioso. Deixa a gente com o corpo moído, triturado, arrasado. Arraso do bem, digamos assim. Muito melhor do que desperdiçar o choro com tristeza.
A primeira vez que vi alguém chorar de emoção fiquei muito intrigada, como qualquer criança eu imagino. Na época eu tinha no máximo uns 8 anos, e o choro veio de uma das pessoas mais importantes na minha vida, meu avô. Que na verdade, na mais profunda verdade, vem a ser o meu pai. Quem me criou, me embalou, me ninou, me deu mamadeira e me ensinou a ser quem eu sou. Foi um reencontro com uma irmã que ele não via há mais de uma década, o motivo da tal debulhação. Lembro-me que aquilo me causou desconforto, fiquei até com uma certa raiva dessa tia avó que o tinha feito chorar. E por mais que a minha avó tentasse explicar que o choro era de felicidade, isso não entrava na cabeça de alguém com 8 anos!
Hoje a debulhação me é muito natural, apesar de certas vezes tentar me esquivar dela. Talvez por isso certas cenas não me saiam da cabeça desde segunda-feira. Talvez ao invés de termos evitado o olhar porque estivéssemos com medo dessa reação, e digo isso com conhecimento de causa, devêssemos ter nos esbaldado nela. Tirado tudo de melhor dela. Vivido sem medo aquela entrega fora de qualquer parâmetro. O medo nos impede de enxergar nuances delicadas de uma situação. Priva o prazer absoluto e luta contra a satisfação. Talvez a debulhação, da qual até hoje estejamos fugindo, seja no fundo a vontade que ainda estamos sentindo de ter nos permitido mais. De ter pensado menos... De ter se esquivado demais.
Comparo a situação com a minha lichia com foie gras em geléia de Tokaji, que deve ir à boca de uma só vez e mordida sem medo, perguntas ou questionamentos. A coragem de se atirar nesse vôo livre e sem pára-quedas é que vai determinar o tamanho da explosão do foie gras que está propositalmente escondido lá dentro. Nesse caso, acho que a nossa presidente foi quem melhor degustou o foie gras!
Bom carnaval e, se preciso for, chorem de felicidade!
Até!
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